terça-feira, 11 de junho de 2013

RESENHA - Michel MAFFESOLI – Elogio da razão sensível

RESENHA - Capítulo VI – A experiência. 1 – O senso comum. 2 – A Vivência  pp.161-183. In: MAFFESOLI, Michel – Elogio da razão sensível. Trad. Albert Christofhe Migueis Stuckenbruck. Petrópolis, RJ: Vozes, 1998.


 

Laura Meireles Gomes Moura[1]


1 – O senso comum

Neste capítulo Maffesoli aborda os caminhos de aproximação e distanciamento entre o discurso especializado e o senso comum passando por todas as paisagens de sedimentação de conceitos corretivos e da fragilidade da legitimação desse último, destituído assim, de um valor em si mesmo para ser questionado e validado. A validação do discurso especializado  pelo “corte epistemológico” é a questão   posta neste capítulo.
Maffesoli considera a intuição e o uso da metáfora como expressões do senso comum e ata-os ao patamar da legitimidade pura, visão que se prende claramente àquilo que lhe confere e importa à vida, na proximidade da construção dela própria sem se ater a moldes do sistema teórico.
A mitologia  é utilizada  com o recorte do mito de Dionísio, ao tratar o saber também por esse olhar – o saber enraizado da divindade arbustiva de Dionísio, o mesmo que M. Weber chama de emocional ou afetual, próprio à comunidade, o que nos faz compreender a integração entre saber orgânico-corporal e o saber social. Assim sendo, são considerados simultaneamente importantes os dados profundos e de superfície que permeiam a cultura como fundamentos da ordem grupal.                          Maffesoli, também salienta que o racionalismo empenhou-se em passar a borracha em tudo que era da ordem do sentimento comum, fazendo dessa concepção um encontro com a metodologia de construção do conhecimento científico.
Portanto, o ponto de partida  de Maffesoli é a  “representação compreensiva”  de Nietzsche que  denomina “enraizamento dinâmico”, advindo do substrato construído de geração em geração e que lembra os vínculos de passado e futuro, provenientes dos enraizamentos da reflexão conferindo já, uma dinâmica do sensível na evolução social.
Ao passar por vários pontos de referências filosóficas nesse sentido, a valorização do ordinário, da sabedoria popular, associam-se ao simbolismo da árvore que se expande e eleva o senso comum à expressão de presenteísmo que serve de pivô entre passado e futuro e de toda a carga simbólica dos arquétipos – regime diurno e noturno que nas raízes da antropologia alimentam, pelos caminhos da seiva, essa árvore assegurando-lhe um crescimento natural que oferece os frutos do comunitário. Dessa forma é acentuado  que o que precede  a qualquer racionalização é a vivência comum que pode tomar formas diversas, mas que, nem por isso, exprime menos extraordinariamente o querer viver que constitui a sociedade.

2 – A Vivência

Ao ligar a vivência, a experiência sensível a laços importantes e significativos do saber, quebra-se aqui os conceitos preestabelecidos que compartimentam o saber e a reflexão e deles desvinculam a experiência sensível, como não pertencente às bases racionais.
Maffesoli propõe a ênfase da vicência cotidiana e da sabedoria popular, fundamentos da sociologia, como forma de reformulá-la atribuindo-lhe a denominação de “sociosofia” como forma de integrar e compreender a “mística do estar junto” explicando as agregações sociais não pela visão racionalista, mas pelos vínculos e as relações de pertença. Utiliza-se da “fórmula” de Fernando Pessoa: “Uns governam o mundo, outros são o mundo” como forma de propor a “centralidade subterrânea” determinando a socialidade e não as formas econômico-políticas como determinantes da vida social.
O teórico outras formas de pensar o vínculo social fora das grandes categorias que marcaram a modernidade: História e a Crítica, passa a ofertar a vivência um outro patamar cujo foco é o cotidiano envolto pelas paixões e os afetos que Bergson denomina de “duração” – pequenos “instantes eternos” que impregnados de significações passam da efemeridade do momento para momentos perduráveis em sua globalidade.
Um aspecto importante é a cientificação do estudo da cultura que quando se torna essencialmente normativo perde a essência principal, atribuindo ao fetichismo  para perceber o que há de vivo na cultura delegando desta forma, a inteligência aos locais de confinamento desta: as universidades, os centros de pesquisa, cada vez mais distantes da vida real.Estes sistemas explicativos e normativos – universalismos abstratos tendem a explicar todos os acontecimentos submetendo a existências às teorias que entendem explicá-la permanecendo fechada numa circularidade.Porém, é necessário para entender um novo estado de coisas, deitar fora as velhas ideias que prevaleceram até então, pois são dogmáticas, percebendo a especificidade e dirigindo-se para a vivência daqueles que são seus protagonistas, do que as teorias codificadas que já indicam o que esse fenômeno é ou deve ser encontrando explicações causais, para coisas humanas, mas, sobretudo compreendê-las.
A separação entre a objetividade e o entusiasmo já é posta entre a ciência e as obras de ficção numa modernidade ofuscada pelo saber científico e técnico, deixando clarear-se a visão quando se constata empiricamente que o sentimento comum, quer no júbilo ou na crueldade, é o que importam – experimentar, juntos, emoções comuns. Assim fazendo, incorporamos o mundo, e nos incorporamos ao mundo. E isso, no sentido mais simples, tornando-nos um corpo global, um corpo social, isto é, um corpo animado. Um corpo construído a partir da união dos contrários, um corpo que alia, ao mesmo tempo, o material e o espiritual, o sensível e o inelegível. Um corpo social que repousa antes demais nada sobre a colocação dos corpos individuais em relação, e, igualmente sobre o fato de que esta colocação dos corpos em relação secreta uma aura específica, um imaginário específico que é o cimento essencial de toda vida em sociedade.



[1] Mestranda em Patrimônio Cultural e Sociedade - UNIVILLE