segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Resenha crítica do texto "O campo musical em expansão", de Lucia Santaella, por Marcus Carvalheiro

Resenha Crítica
Autor da Resenha:
Marcus Carvalheiro
Referência do Texto:
SANTAELLA, Lucia. O Campo musical em expansão. In: Matrizes da Linguagem e Pensamento: Sonora, Visual, Verbal. São Paulo: Iluminuras, 2005, pp. 81-96.
Palavras-chaves (3):
Música; linguagem; estética/técnica.
Desenvolvimento do Texto:
       Em O Campo Musical em Expansão, Lúcia Santaella busca elucidar esta transição de percepção da arte no mundo contemporâneo levando em consideração os aspectos estéticos e técnicos da música. O texto faz parte do importante livro Matrizes da Linguagem e Pensamento: Sonora, Visual, Verbal, Santaella aprofunda estudos desenvolvidos por Charles Peirce. Após apresentar de forma densa a teoria das três principais matrizes da linguagem e pensamento de Peirce (sonora, visual e verbal) nos dois primeiros capítulos, Santaella aborda (podemos dizer que até de forma poética) a expansão da música e os limites para tratá-la apenas a partir da classificação em ritmo, melodia e harmonia. A autora trabalha em torno de “nove modos de ouvir”. Estas nove subdivisões são feitas a partir de três grandes níveis retirados do livro “O que é música”, de J.J. Moraes. São eles: (1) ouvir emotivamente, (2) ouvir com o corpo e (3) ouvir intelectualmente. Apesar de Santaella explicar que estes níveis se entrelaçam e são inseparáveis, a autora chama atenção para o fato do mundo contemporâneo e das novas tecnologias nos proporcionarem novas formas de ouvir, ou pelo menos, formas mais detalhadas de especificar estas experiências.

                               Ouvir emotivamente corresponde ao primeiro efeito que a música está apta a produzir no ouvinte. Ouvir com o corpo entra em correspondência com o interpretante energético, visto que este diz respeito a um certo tipo de ação que é executada no ato de recepção de um signo. Ouvir intelectualmente significa incorporar princípios lógicos que guiam a recepção da música” (SANTAELLA, 2005, p. 82)

         A partir destes conceitos, Santaella subdivide os grandes níveis de Moraes em nove modalidades, sendo as primeiras do campo emotivo: (1.1) Qualidade de Sentir, em que a situação do ouvinte é um “instante fugido” ou “um sentimento em si mesmo”; (1.2) Comoção, uma experiência que “quer dizer, aquilo que nos move, que nos movimenta interiormente”; (1.3) Emoção, quando nomeamos o sentimento, quando rotulamos as músicas em alegres, tristes, melancólicas e outros.  A partir do segundo nível, o de ouvir com o corpo, Santaella especifica que há: (2.1) ouvir de corpo tomado, no qual  “o ritmo penetra no corpo”, pois “o próprio corpo parece ser a fonte geradora do ritmo”; (2.2) quando o ouvir é uma contiguidade entre a música e o corpo, sendo a música algo que vem e “o corpo, sem saber, já começa a se agitar”; (2.3) a dança coreografada, na qual a coreografia funciona como tradução plástica do ritmo. Já no terceiro nível, o intelectual, Santaella encontra outros três desdobramentos: (3.1) Hipotético, quando o ouvinte, mesmo treinado, está “diante de um ato de recepção em que seu intelecto não pode senão formular hipóteses”; (3.2) Relacional, em que o ouvinte é capaz de perceber milimetricamente os jogos das sobreposições e, por fim, a (3.3) escuta especializada, quando o ouvinte conhece todos os sistemas de referência da música (2005).
         Lúcia Santaella entende que a classificação da escuta se tornou mais frequente na medida em que a percepção sonora se transformou nas últimas décadas em um elemento fundamental para a própria composição. Tratar da expansão da música como experiência estética é traduzir este período de transição para o mundo contemporâneo. Após a II Guerra, as fronteiras entre os países se diluíram e o avanço tecnológico proporcionou teorias mais complexas.
         A partir de reflexões sobre os estudos de Pierre Schaeffer, Santaella afirma que em meados deste século a composição musical passou a considerar qualquer tipo de som, inclusive ruídos.  Este é um advento próprio do mundo contemporâneo. Por isso, existem ainda outras classificações que podem ser utilizadas, além das nove modalidades anteriormente resumidas. “Palavras como ritmo, melodia e harmonia – colunas mestras da música que se engendrava a partir da nota como unidade – começaram a desaparecer do vocabulário dos compositores”, em decorrência das rupturas da linguagem sonora a partir de meados do século XX (2005, p. 88).  Assim, “insatisfeitos com os timbres da orquestra clássica, os compositores a ela adicionaram novos instrumentos: percussão em profusão junto com instrumentos populares, antes considerados indignos para comparecerem em um concerto” (2005, p.90). Fenômeno que evoca uma espécie de crise interrupta, resultante de novas máquinas que registram, amplificam, manipulam sintetizam, analisam e controlam o som. É a partir deste desenvolvimento tecnológico que se permite a “criação de matérias e trajetórias sonoras inauditas”.
         Santaella explora um novo mundo de percepções ao sinalizar que, a partir de Boulez, existem sons a serem ouvidos e possibilidades a serem exploradas (2005, p.91). A música eletrônica, por exemplo, proliferou o material sonoro, adicionando novas transformações do som (BAYLE apud SANTAELLA).
Ao retomar Bayle (1993) e Wishart (1996), Santaella apresenta uma “flexibilidade temporal” que, em um sentido amplo, trata da impossibilidade de se detectar as hierarquias estruturais da produção artística. Como exemplo, cita o “i-som”, um composto imagem-som, que considera “o conceito espacial da forma que se revela com todas as suas consequências” (2005, p.95). Por fim, interpreta a música contemporânea como uma transgressão, como uma forma de renunciar aos esquemas e sistemas formais, contrapor as inércias e estagnações. E é por estas razões que Santaella ao analisar este panorama multifacetado e pluridimensional optou por passar a chamar suas classificações de modalidades da sintaxe sonora e não mais estritamente de sintaxe musical. “Enfim, uma classificação capaz de abrigar não só a música das notas, mas também aquela dos grânulos, massas, nuvens e poeiras de sons” (2005, p.96).

terça-feira, 8 de agosto de 2017

IN MEMORIAN - Homenagem a Paulo Santos da Silva

"Para um amante da justiça, a morte é a coisa mais mal distribuída deste mundo. Não posso entender qual seja o critério com que a distribuição se dá. Mas, há um critério? A sorte joga os dados e ao resultado chamamos destino” - Bobbio.


Paulo Santos da Silva foi integrante do Grupo de Pesquisa Imbricamentos de Linguagens desde o ano de 2014. Defendeu a sua dissertação de Mestrado em Patrimônio Cultural e Sociedade em 2015 – “Representações e memórias: jogos de poder nas lendas circulantes em Guaratuba recuperadas por vozes de mulheres”, na Linha de Pesquisa Patrimônio e Memória Social, da Univille - Joinville, SC. Pós-graduado em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná - PUC, graduado em Letras - português/latim pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (1992)Atuou como professor na Faculdade do Litoral Paranaense - ISEPE, no Colégio Monteiro Lobato - em Guaratuba/PR, no SENAC - Caiobá, como professor substituto na Fafipar - Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de Paranaguá, no Colégio Nova Geração - Paranaguá, Curso Pré-Vestibular Evidente - Curitiba -, no Ensino Médio no Colégio Isepe de Guaratuba e no Ensino Fundamental, 4º Ciclo, na Sociedade Educacional Novo Éden, em Curitiba. 

                Foi contador de 'causos' e idealizador de pontes. 


Na travessia da vida não sou como ferry-boat, que atrasa, que perturba, que não evolui – só retrocede; na travessia da vida planto canções e ensinamentos, pérolas, flores e sentimentos, vejo e revejo o que fiz, para que quando a luz estiver se fechando, eu possa cantar que fui feliz.” Paulo Santos da Silva * 03.09.1964 + 31.07.2017
Fonte: https://www.correiodolitoral.com/21078/a-luta-continua


4º Ciclo de Conferencias sobre Estudios Latinoamericanos (IAPCS.UNVM)

UNIVERSIDAD NACIONAL DE VILLA MARIA - ARGENTINA

IDENTIDADES  URBANAS  E IDENTIDADES INTERCULTURALES:
LENDAS URBANAS RECUPERADAS POR VOZES DE MULHERES

Dra.Taiza Mara Rauen Moraes
Universidade da Região de Joinville - UNIVILLE¹
Mestre Paulo Santos da Silva -UNIVILLE²


 As lendas coletadas em Guaratuba/PR, foram contadas por vozes de mulheres, a partir de pesquisa desenvolvida nos anos de 2014 e 2015, por Paulo Santos da Silva, reafirmando Paul Ricoeur[1] ao sinalizar que em cada versão, o lendário (re)inaugura “novas formas de narrativas, que ainda não sabemos dominar”, num metamorfismo contínuo fixando culturas e linguagens em fluxo. Portanto, novas formas de narrar as lendas transmitem memórias de grupos, de uma época e de uma cultura, revivendo pela oralidade no tempo presente histórias que recuperam tradições. Pensamos as lendas como uma coletânea dos rastros deixados pelos acontecimentos que afetam o curso da história dos grupos envolvidos, cuja memória permite o sentido da orientação na passagem do tempo, que vem em mão dupla, do passado para o futuro e também do futuro para o passado através do presente em que se vive.

Para ter acesso ao texto na íntegra, acesse:  Clique aqui!



LENDAS COMO REGISTROS IDENTIFICADORES DE PAISAGENS CULTURAIS

Paulo Santos da Silva
Universidade da Região de Joinville - UNIVILLE¹

Taiza Mara Rauen Moraes
Universidade da Região de Joinville - UNIVILLE²




Resumo

Falar sobre lendas, é falar sobre universos de memórias recriadas a cada (re)conto, que nascem de fatos reais acrescidos de informações ou sintetizados e são transformadas em  novas narrativas como registros difundidos oralmente e recuperados  mantendo vivas tradições coletivas e paisagens culturais. As lendas coletadas em Guaratuba/PR, contadas por vozes de mulheres, a partir de pesquisa desenvolvida nos anos de 2014 e 2015, reafirmam Paul Ricoeur (1995) ao sinalizar que em cada versão, o lendário (re)inaugura “novas formas de narrativas, que ainda não sabemos dominar”, num metamorfismo contínuo fixando culturas de linguagens em fluxo. Portanto, novas formas de narrar as lendas transmitem memórias de grupos, de uma época e cultura, revivendo pela oralidade no tempo presente histórias que recuperam tradições dos grupos envolvidos, cuja memória permite o sentido da orientação na passagem do tempo, que vem em mão dupla, do passado para o futuro e também do futuro para o passado através do presente em que se vive delineando paisagens culturais. Assim, no ato de narrar lendas, perpassam jogos ideológicos que podem apontar para o entendimento de como essas narrativas são recontadas no tempo presente, de como elas permitem novos e múltiplos olhares sobre as paisagens das quais originam e de como elas, as narrativas, podem ser vistas como memória de um grupo que se considera autor de sua própria história e faz da realidade vivida suas representações.

Palavras- chave: Atores sociais; Memórias; Lendas: Paisagem cultural.

Para ter acesso ao texto na íntegra, acesse: Texto III ENIPAC

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Linguagem, Verdade e Conhecimento
Autores da Resenha:
Philipe Macedo Pereira, mestrando em Patrimônio Cultural e Sociedade da UNIVILLE
Thiago Túlio Pereira, acadêmico de Letras da UNIVILLE
Referência do Texto:
MERLEAU-PONTY, M. O algoritmo e o mistério da linguagem. In: MERLEAU-PONTY, M. O Homem e a Comunicação: A Prosa do Mundo. Rio de Janeiro: Edições Bloch, 1974. p. 125-138.
Palavras-chave (3):
LINGUAGEM – CONHECIMENTO – VERDADE
Desenvolvimento do Texto:

Em “O algoritmo e o mistério da linguagem”, o filósofo fenomenólogo francês Maurice Merleau-Ponty (1908-1961) trata da linguagem e sua relação com a verdade, o conhecimento e a percepção, utilizando como analogia o ordenamento matemático. Trata-se do sexto capítulo do seu livro “O Homem e a Comunicação: A Prosa do Mundo”, primeira edição de 1974, publicado no Brasil pela Bloch Edições, Rio de Janeiro.
          Para o autor, a linguagem não é significada tão somente aos usos habituais ou convencionais, até mesmo não se preocupando com uma significação, em certos momentos. Dentro da própria linguagem, ela existe nela mesma, lançando como exemplo o caso dos pensamentos, que na visão de Merleau-Ponty são palavras criadas por palavras que, por sua vez, resultam em mais significações de linguagem. Também, é abordada a questão da palavra enquanto ruído, o qual se manifesta nas palavras que são ditas sem um pensar prévio, como um frugal aperto de mão, apoiando-se no filósofo francês Jean Paulhan para sustentar sua teoria de que a linguagem quando falada “[...] não se contenta em designar pensamentos como um número, na rua, designa a casa de meu amigo Paul – mas realmente se metamorfoseia neles assim como eles se metamorfoseiam nela [...]” (p.194).
            Merleau-Ponty também pondera que não há definições prontas para a linguagem, posto que no momento em que ela é, ou que pretensamente é postulado um ser da linguagem, não há mais como voltar atrás e questioná-la, pois já se possui um significado produzido com relação a ela: “A linguagem só permanece enigmática para quem continua a interrogá-la, isto é, a falar dela” (p.197). Desta forma, o filósofo postula a procura, o questionamento da linguagem como forma de manter o mistério em torno dela, pois no momento em que ela é utilizada na prática cotidiana, perde-se de fato esta busca e tem-se apenas um uso.
            Na sequência, Maurice Merleau-Ponty pontua que encontramos nossas palavras, por vezes, nas palavras do outro, levando-nos a admitir que “[...] não vivo somente meu próprio pensamento, mas que, no exercício da fala, me torno aquele que eu escuto” (p.198). É esse caráter dinâmico da linguagem que molda o próprio movimento do pensamento, do conhecimento e da verdade.
           O autor, então, propõe compreender a linguagem como reconstrução algorítmica, procurando entender a verdade linguística como fosse um processo numérico, com relações entre as palavras. E dá o exemplo de objetos que possuem um uso primeiro, mas em certo momento se deslocam de sua função primária para desempenhar outro papel, sofrendo uma alteração do sentido, tais quais as palavras em certos momentos.
            Para Merleau-Ponty, a percepção parte de um “eu posso”, de modo que a construção da verdade deriva de “eu penso” (p.200), um ato de reconhecimento interior que valora a linguagem. O filósofo afirma também que não é mais possível ao matemático trabalhar com as operações já conhecidas e apenas isso, ele deve procurar as outras hipóteses, de modo que “[...] a própria operação seja legitimada pela natureza do ser matemático sobre o qual incide” (p.201). Na visão do autor, ao se encontrar no algoritmo, a linguagem é fluida e liberta de qualquer compromisso que tenha com os signos.
              Merleau-Ponty também discorre sobre as experiências que tem “o caráter de verdade” (p.202), classificando-as como eventos que, ordinários, em dado momento se aprofundam, deixam de ser opacos, fazem-se transparentes e são sentidos ad eternum. Desta forma, o autor traz à discussão os termos “propriedade” e “ser”, afirmando que há “elos indestrutíveis” entre elas, e que as relações estabelecidas entre elas são “sinônimas” (p.203).
              O filósofo destaca outro ponto que é a questão da percepção. Para o autor, a percepção não é o conhecimento, mas o prescinde. O conhecimento, portanto, é aquilo que se constrói a partir de percepções do mundo, envolvendo aquele que o percebe e aquilo que é percebido. Esse diálogo constrói a percepção, que, dotada de sentido, transforma-se em conhecimento. A percepção, para o filósofo, apenas reconstitui (o númeno) aquilo que já está constituído e existe por si só (o fenômeno).
              Na esteira das discussões sobre percepção e conhecimento, outro conceito relevante apresentado no texto é o de verdade. Para Merleau-Ponty, a verdade é um “devir” de sentidos, ou seja, é um elemento em constante dinamismo. Quando, através da percepção e das formulações, se constitui um novo conhecimento, a verdade está nesse movimento de (re)construção.
            Todo conhecimento “novo” parte de um conhecimento “antigo”, seja aquele que promove sua continuidade ou sua ruptura. A cada nova resposta aparecem infinitas perguntas. Respondê-las não é constituir a verdade; esta não se esgota em si. Ela está nesse eterno “continuum” de “perguntas x respostas”, “percepções x conhecimentos” que é mediado pelas percepções e conhecimentos humanos.
              Finalmente, ao retomar a questão do “algoritmo” e as relações entre a linguagem e a matemática, Merleau-Ponty pontua que não há conhecimento que se esgote, haja vista que as demandas surgem de acordo com as novas formulações da realidade. Dessa forma, fazendo uma analogia com o corpo, que ele assume como “o veículo em busca do ser no mundo” (p. 213), o autor coloca “a fala como o veículo em busca da verdade” (p. 213), ou seja, esse eterno “devir de sentidos”.
Observações:
O texto é um importante subsídio para discussões sobre linguagem, verdade e conhecimento, podendo mediar debates de Filosofia, Epistemologia (para qualquer área do conhecimento, neste caso), Letras e áreas afins à Comunicação. Sua linguagem complexa e estrutura em forma de ensaio provocam olhares múltiplos de leitura, que viabilizam debates. Essa prática pode ser utilizada para elucidar trechos de difícil compreensão presentes em alguns parágrafos. Como forma de contextualização filosófica, uma leitura panorâmica sobre a Fenomenologia e Merleau-Ponty talvez seja interessante.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Resenha Crítica III: "A partilha do Sensível", de Jacques Rancière


                           Resenha Crítica
Autor da Resenha: 
Philipe Macedo Pereira
Referência do Texto:
RANCIÉRE, Jacques. A Partilha do Sensível: estética e política / Jacques Rancière; tradução de Mônica Costa Netto. – São Paulo: EXO experimental org.; Ed. 34, 2005.

Palavras-chave (3):
Arte; política; estética
Desenvolvimento do Texto:
          Na obra “A partilha do sensível: estética e política”, o filósofo francês Jacques Rancière discorre sobre a indissociabilidade entre arte e política, assim como os conceitos vagos com relação à modernidade, e também pondera acerca da vanguarda e pós-modernidade, contribuindo com as discussões do pensamento contemporâneo. No capítulo foco desta resenha, intitulado “Dos regimes da arte e do pouco interesse da noção de modernidade”, o filósofo trata de alguns conceitos centrais relacionados à criação da arte no século XX e noções políticas associadas.
            Rancière primeiramente argumenta que as noções de modernidade e vanguarda, relacionadas ao“regime da arte”, muitas vezes não levam em conta “[...] a historicidade própria a um regime das artes em geral” (p.27), os caminhos da arte ao longo de sua construção, e também “[...] as decisões de ruptura ou antecipação que se operam no interior desse regime” (p.27). Então, ao tratar da arte,  o filósofo discorre sobre três regimes de identificação da arte, sendo o primeiro chamado regime ético das imagens, onde a arte não é assim chamada, mas se encontra associada às imagens. Dentro desta questão, chama atenção também o fato apontado por Rancière acerca dos simulacros, de como eles imitam modelos pré-definidos com fins específicos.
            O segundo regime apontado pelo autor é o poético, também chamado representativo. Tal regime trata do fazer artístico. “É o feito do poema, [...], que importa, em detrimento do ser da imagem, cópia interrogada sobre seu modelo” (p.30). Desta forma, o poético / representativo define as maneiras de fazer e da apreciação de boas imitações, e também as representações dessas formas de observar.
          O terceiro regime é o estético, o qual segundo Rancière, trata do modo de ser do que é artístico, o “[...] modo de ser específico daquilo que pertence à arte, ao modo de ser de seus objetos” (p.32). O regime estético remove da arte a obrigação de ser vinculada a regras ou propósitos. O autor reflete que tal regime é um momento de experimentação, e discorre que o estético, primeiramente, tenciona obter uma relação do antigo com o novo na arte.
    A partir destes conceitos, Rancière promove uma discussão sobre a noção de modernidade vigente e sobre pareceres confusos relacionados a ela, aponta dois equívocos: o de “[...] uma modernidade simplesmente identificada à autonomia da arte [...]” (p.38), de forma que cada arte exploraria seu potencial dentro de seus meios específicos, sem se ater aos significados outros (um exemplo do autor é a literatura ou poética sendo analisadas sem levar em conta seus usos comunicacionais), e também o equívoco de conceber a arte como “[...] forma e auto-formação da vida” (p.39), na tentativa de valorar o que é artístico e dar um sentido. Desta forma, o autor conduz o leitor a indagar-se se há de fato uma obrigação da arte em servir a algo ou alguém.
        Ao discorrer sobre a modernidade, Rancière liga os movimentos da arte com a questão política, demonstrando que tanto arte quanto política partem a partir de um ideal, de utopias, e mesmo não sendo possível alcançar, talvez, o que está inicialmente proposto, trabalham neste meio. E os partidos então, conforme o autor, reproduzem a tentativa de se aproximar do que é perfeito, ideal, segundo os critérios de quem faz parte daquele grupo. Tal qual em grupos de arte.


Observações:
Rancière no capítulo “Dos regimes da arte e do pouco interesse da noção de modernidade” aborda os movimentos da arte associados à política, pois segundo sua visão, ambos são decorrentes de um ideal e de utopias a serem alcançadas.





Resenha Crítica III: "A partilha do Sensível", de Jacques Rancière


                           Resenha Crítica
Autor da Resenha: 
Philipe Macedo Pereira
Referência do Texto:
RANCIÉRE, Jacques. A Partilha do Sensível: estética e política / Jacques Rancière; tradução de Mônica Costa Netto. – São Paulo: EXO experimental org.; Ed. 34, 2005.

Palavras-chave  (3):
Arte; política; estética
Desenvolvimento do Texto:
          Na obra “A partilha do sensível: estética e política”, o filósofo francês Jacques Rancière discorre sobre a indissociabilidade entre arte e política, assim como os conceitos vagos com relação à modernidade, e também pondera acerca da vanguarda e pós-modernidade, contribuindo com as discussões do pensamento contemporâneo. No capítulo foco desta resenha, intitulado “Dos regimes da arte e do pouco interesse da noção de modernidade”, o filósofo trata de alguns conceitos centrais relacionados à criação da arte no século XX e noções políticas associadas.
            Rancière primeiramente argumenta que as noções de modernidade e vanguarda, relacionadas ao“regime da arte”, muitas vezes não levam em conta “[...] a historicidade própria a um regime das artes em geral” (p.27), os caminhos da arte ao longo de sua construção, e também “[...] as decisões de ruptura ou antecipação que se operam no interior desse regime” (p.27). Então, ao tratar da arte,  o filósofo discorre sobre três regimes de identificação da arte, sendo o primeiro chamado regime ético das imagens, onde a arte não é assim chamada, mas se encontra associada às imagens. Dentro desta questão, chama atenção também o fato apontado por Rancière acerca dos simulacros, de como eles imitam modelos pré-definidos com fins específicos.
            O segundo regime apontado pelo autor é o poético, também chamado representativo. Tal regime trata do fazer artístico. “É o feito do poema, [...], que importa, em detrimento do ser da imagem, cópia interrogada sobre seu modelo” (p.30). Desta forma, o poético / representativo define as maneiras de fazer e da apreciação de boas imitações, e também as representações dessas formas de observar.
          O terceiro regime é o estético, o qual segundo Rancière, trata do modo de ser do que é artístico, o “[...] modo de ser específico daquilo que pertence à arte, ao modo de ser de seus objetos” (p.32). O regime estético remove da arte a obrigação de ser vinculada a regras ou propósitos. O autor reflete que tal regime é um momento de experimentação, e discorre que o estético, primeiramente, tenciona obter uma relação do antigo com o novo na arte.
    A partir destes conceitos, Rancière promove uma discussão sobre a noção de modernidade vigente e sobre pareceres confusos relacionados a ela, aponta dois equívocos: o de “[...] uma modernidade simplesmente identificada à autonomia da arte [...]” (p.38), de forma que cada arte exploraria seu potencial dentro de seus meios específicos, sem se ater aos significados outros (um exemplo do autor é a literatura ou poética sendo analisadas sem levar em conta seus usos comunicacionais), e também o equívoco de conceber a arte como “[...] forma e auto-formação da vida” (p.39), na tentativa de valorar o que é artístico e dar um sentido. Desta forma, o autor conduz o leitor a indagar-se se há de fato uma obrigação da arte em servir a algo ou alguém.
        Ao discorrer sobre a modernidade, Rancière liga os movimentos da arte com a questão política, demonstrando que tanto arte quanto política partem a partir de um ideal, de utopias, e mesmo não sendo possível alcançar, talvez, o que está inicialmente proposto, trabalham neste meio. E os partidos então, conforme o autor, reproduzem a tentativa de se aproximar do que é perfeito, ideal, segundo os critérios de quem faz parte daquele grupo. Tal qual em grupos de arte.


Observações:
Rancière no capítulo “Dos regimes da arte e do pouco interesse da noção de modernidade” aborda os movimentos da arte associados à política, pois segundo sua visão, ambos são decorrentes de um ideal e de utopias a serem alcançadas.





quarta-feira, 25 de maio de 2016

Resenha Crítica II: "Hemenêutica em Retrospectiva", de Hans-Georg Gadamer


Resenha Crítica
Autor da Resenha:
Philipe Macedo Pereira
Referência do Texto:
GADAMER, Hans-Georg. Escrever e falar (1983). In: Hermenêutica em retrospectiva. Tradução  Marco Antônio Casanova. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009
Palavras-chave (2):
Escrita, Oralidade
Desenvolvimento do Texto:
        Em “Escrever e falar”, de 1983, Gadamer propõe discorrer sobre os atos da escrita e de oralidade, de modo a comparar os dois modos e estabelecer um paralelo com seus usos no lecionar.
        Para o autor, tanto a palavra escrita quanto a falada devem ser pensadas quanto aos seus usos. Cita Platão ao dizer: “A palavra escrita,[...], é duvidosa para o pensamento” (GADAMER, 1989, p. 370). Porém, para o filósofo também “[...] a oratória torna-se suspeita, logo que alcança uma certa maestria” (p.370).
        Gadamer também se refere à escrita como um diálogo efetuado pelo escritor através do seu escrever, um ato de certa forma solitário. E critica o academicismo que torna, os professores “mimados” e mantendo diálogos com grupos que conhecem seus temas de estudos, sem espaço para um pensar em si: “Nós permanecemos por semanas e meses a fio em diálogo com os mesmos parceiros que nos compreendem [...], mesmo que nós mesmos por vezes não consigamos nos compreender” (p.370).
          De forma coerente, o autor aponta as dificuldades da escrita, seja ao procurar pelas palavras adequadas, encontrá-las, exercitar “ [...] a escuta tensa ao outro [...]” (p.371). E declara preferir deixar o ato de escrever para o último momento, por vontade ou pressões externas. E, a partir de  comentário do poeta Paul Valéry, esboça um comparativo entre escrita literária e escrita acadêmica, definindo a primeira como ato fluido, onde as palavras são lançadas ao papel, “[...] um todo em forma de canção [...]” (p.371), enquanto a segunda forma de escrita é marcada pela temporalidade, pela espera ou adiamento do escrever.
          Hans-Georg Gadamer encerra discorrendo de forma acertada sobre o consolo da escrita para o escritor, que é o “eco” ou reprodução de suas palavras por outras pessoas, e pontualmente contribuindo para as discussões relacionadas ao escrever, na medida em que declara indiretamente que todo escritor deseja ser lido e escreve a alguém, ainda que seja um pequeno grupo ou uma única pessoa.    

Resenha Crítica I: "Hermenêutica em Retrospectiva" de Hans-Georg Gadamer


Resenha Crítica
Autor da Resenha:
Philipe Macedo Pereira
Referência do Texto:
GADAMER, Hans-Georg. Ciência histórica e linguagem (1987). In: Hermenêutica em retrospectiva. Tradução  Marco Antônio Casanova. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009
Palavras-chave (3):
Linguagem, hermenêutica, ciência histórica
Desenvolvimento do Texto:
       Em “Ciência histórica e linguagem”, Gadamer discorre sobre a importância da linguagem para a construção de uma história humana. O autor inicia seu texto citando o filósofo Koselleck a partir de ideias deste sobre a obra Ser e tempo, de Heidegger, para tratar da hermenêutica, a qual permeia o escrito do filósofo alemão.
       O autor aponta a questão, percebida principalmente pelos grupos mais jovens, com relação à falta de esperanças no futuro, e a necessidade de pensar a filosofia com vistas não somente de retrospectiva, mas também analisando o que pode estar à frente. E destaca a procura humana pelo sentido, o que representaria uma resistência às adversidades: “[...] em face de todos os desafios que a realidade nos apresenta por meio do disparate, da loucura e da ausência de sentido avassaladora, resistir e permanecer incansável na busca pelo compreensível e pelo sentido” (GADAMER, 1987, p.341).
        Hans-Georg Gadamer faz referência a Aristóteles que pontua a linguagem como a distinção maior entre humanos e animais, uma vez que esta, na visão do filósofo, permite não apenas estabelecer comunicação através de sinais, mas permite ao ser humano “[...] um campo de jogo de possibilidades, um campo de jogo de outro tipo, que é aberto para nós” (p.342). Para Gadamer, a linguagem abre novas possibilidades de representações das coisas e afeta o agir racional, através da habilidade de “deixar algo permanecer incerto” (p.343). Pontua-se também a possibilidade de (re)ordenação através da linguagem, de modo a apagar ou modificar erros anteriores de comunicação.
        No primeiro parágrafo da página 344, o autor faz referência ao historiador alemão Droysen e aos filósofos Schleiermacher e Dilthey para tratar da ciência histórica enquanto constituindo elementos da hermenêutica, procurando a compreensão dos fatos e estabelecendo pensares. Gadamer cita o caráter linguístico da hermenêutica como algo que além de dizer respeito aos textos,  também implica “à condição fundamental do ser de toda ação e de toda criação humanas [...]” (p.344). O filósofo também cita que a linguagem está presente ao narrar-se histórias de guerra, bem como “o suicídio e as formas de diferenciação entre público e secreto” (p.345). E aponta o texto histórico como algo que nunca está concluído, mas abre espaço para incógnitas.
         Gadamer relevantemente pontua que o fascínio das narrativas históricas está no caráter hermenêutico delas, ou seja, há o reconhecimento de si nos outros, e que o olhar compreensivo humano deveria ser dirigido “para o que é comum a todos nós, algo que conhecemos melhor no outro do que em nós mesmos” (p.346). Dessa forma, evidencia a necessidade de olhar para a história sob um viés hermenêutico, reconhecendo neste movimento a linguagem como ponto central de seu discurso.